As falhas do praticante de trail

As falhas do praticante de trail (pequeno guia para aprender a lidar com situações constrangedoras, com estilo)

“Quais serão as falhas dos praticantes de trail?”, questiona-se. Além disso, dizer que é um absurdo estaria mais perto da realidade! 

Ah, como a má-fé é um animal selvagem (mas não em perigo de extinção) que se observa com interesse. Sim, sabemos que passa a ideia de uma imagem campestre do trail: “olá flores”, “bom dia cervos”, “olha, um esquilo!”. Embora esta imagem seja parcialmente verdadeira, também é parcialmente falsa. Digamos que a verdade não está totalmente exposta! E sim, diga-nos, onde está a lama? Os fracassos de trail? E os palavrões, não disse nenhum?

A autenticidade do trail reside no facto de que está longe (mesmo muito longe) de ser um passeio tranquilo. No entanto, não se pode culpar ninguém por pensar o contrário. É verdade! Porquê voltar a praticar, se a experiência fosse assim tão horrível? É porque deve ter alguma coisa de positivo! Se é principiante, pode ficar tranquilo(a): volta-se sempre ao trail, apesar de… tudo o que pode acontecer. 

Assim, porque queremos dizer-lhe toda a verdade sobre as aventuras fantásticas que o(a) esperam (que não lhe parecerão fantásticas na altura, mas que o serão passado um tempo, prometemos!), e também porque temos algumas ideias para o(a) libertar desses momentos, digamos, solitários… Elaborámos este pequeno guia, composto por seis das maiores falhas no trail, para que aprenda a ser um(a) praticante de trail imperfeito(a), mas com sucesso e estilo, por favor!

1. A expetoração que persiste

Sente a boca pastosa. A saliva acumula-se. Custa-lhe, cada vez mais, engolir. Além disso, tem outros praticantes colados a si. Já ouviu o suficiente: estas últimas frases são o suficiente para preparar o cenário para o seu pior pesadelo, aquele em que quer cuspir, bem, onde DEVE cuspir, mas não pode, porque está aterrorizado(a) com o que pode acontecer se falhar, e em público. No entanto, a expetoração vai ter de sair, eventualmente. 

Bem, não se sente de todo pronto(a) para expulsar o projétil de uma só vez, mas o que tem de ser tem muita força! Começa a tentar: “arggg pfff” (é o som que os rapazes fazem, as raparigas sabem ser mais discretas). E eis que a expetoração sai. Finalmente. Ah! Mas… Como uma pessoa que salta com uma corda de bungee jumping, o muco mergulha no ar, a gravidade leva-o para o chão e, de repente, volta a subir… Suspenso por um fio, pouco percetível, mas no entanto tão sólido. Sim, como em Mulan. 

Para sair desta situação em grande estilo, não bata com o antebraço no "pacote", como se estivesse desesperado(a) para se livrar de um inseto. Aperte a ponta do fio entre o polegar e o indicador (à entrada da boca), e atire-o para o lado, num movimento preciso e hábil, tendo o cuidado de não deixar que se cole à manga. Sim, requer uma certa prática. E sim, já passei pela experiência.

2. A autoconfiança que lhe dá asas... ou então não

As premissas da prova de trail não pareciam gloriosas. Não estava na sua melhor forma e não estava a sentir a cena, como se diz. Por isso, qual não foi a sua alegria quando sentiu um pouco de à-vontade na prática: uma passada dinâmica, as pernas leves, uma postura excelente (sim, isso mesmo). De repente, está cheio(a) de vigor! Sente-se nas nuvens! Além disso, com a sua sombra à sua esquerda, pode até admirar-se a si próprio(a). Está prestes a passar por outros praticantes. Levanta o queixo, enche o peito e acelera a passada (o que é natural). Bastou-lhe tirar os olhos do chão durante meio segundo para que o grande Deus do trail o chamasse imediatamente à ordem, cortando-lhe as asas e oferecendo-lhe uma boa dose de gravidade, como na Pequena Casa na Pradaria, mas com (muito) menos piada. As raízes nunca estão onde esperamos! Pregou um susto aos outros praticantes, que agora apressam-se para socorrê-lo(a).

Para sair desta situação com estilo, não finja estar indisposto(a). Além de preocupar todas as pessoas, há uma forte possibilidade de que as suas lendárias capacidades de representação o(a) traiam. Em vez disso, opte por uma frase que relaxe o ambiente, como "aprendemos com os nossos erros!", não se preocupem, não é a minha primeira nem a última queda!, ou ainda, "estão com sorte, assim sabem que este local é traiçoeiro!". Vai com certeza provocar sorrisos!

3. O entusiasmo malogrado

Embora o trail seja um desporto solitário e goste de estar sozinho(a), não vai recusar um pouco de companhia após algumas horas consigo mesmo(a). Assim, quando vê uma pessoa ao longe, fica animado(a)! O efeito de algumas palavras de encorajamento ou de um simples sorriso é imediato e mais eficaz do que um gel energético! E quando uma criança lhe estende a mão e vê aquela carinha a tremer de expetativa perante a ideia de que você, UM(A) dos protagonistas deste trail, lhe dê uma palmadinha amigável, derrete-se literalmente. É adorável! 

A 5 metros, por sua vez, estende-lhe a mão. A 4 metros, nota que a criança viu que lhe estendeu a mão. A 3 metros, a criança alegra-se. A 2 metros, fica feliz por ver a alegria da criança. A 1 metro, o encontro está próximo. A 20 centímetros, a criança retirou a mão e ri-se às gargalhadas com os seus amigos. Os pais advertem a criança, “já te dissemos para parares de fazer isso, já chega, não?”. Apercebe-se de que foi enganado(a).

Para sair desta situação com estilo, não aja como o adulto indignado e amargurado, ao dizer “a juventude de agora está perdida!”. Aja como um adulto fixe e com estilo, e diga-lhe “olha, bem jogado, apanhaste-me!”, ou “tiveste sorte, ultrapassaste-me”, ou então “faz isso ao senhor que se chama Sylvain, atrás de mim, e diz-lhe que a Cécile está com um ar bem mais fresco do que ele!”. Resumindo, não se esqueça de que as crianças fartam-se facilmente (sobretudo no trail, restritos a um caminho durante 3 horas, com os pés na lama, sob uma chuviscada que parece não querer parar).

4. O beijinho que procurava (desesperadamente) um destinatário

Como acabámos de dizer, os encontros na curva do trilho fazem, sem dúvida, parte dos bons momentos que gostamos de viver no trail. E quando estamos à espera desses encontros, ainda melhor! Especialmente quando temos a sorte de ter o nosso próprio clube de fãs a deslocar-se especialmente para nós. Uma boa dose de amor e atenção é refrescante… Desde que seja dada e recebida, ou seja, que não seja unilateral!

Reconhece a sua cara-metade, lá em baixo! Fica tranquilizado(a) pela sua cara-metade não se ter perdido pelo caminho (é evidente que, dos dois, é você que tem sentido de orientação). Está finalmente prestes a receber toda a atenção que merece, por isso deixa-se levar um pouco. E com razão, quando a sua cara-metade está limpa e perfumada, corre para ela, você que cheira mais a besta do que a rosas, e com a expetoração mal limpa, agora seca na cara… Enfim, está a ver o cenário. Dadas estas circunstâncias atenuantes, pode realmente levar o(a) seu(sua) parceiro(a) a mal por se afastar quando o(a) queria beijar? A resposta é não.

Para sair desta situação com estilo, seja compreensivo(a), não se enerve. Responda com humor, dizendo-lhe “tens razão, não cheiras lá muito bem!”, ou então “achava que estávamos juntos para o melhor e o pior!”.

5. O guia que não sabia orientar

Sabe aquele momento em que o pequeno pelotão em que se encontra tem um momento de hesitação sobre o caminho a seguir e você crê ver uma marcação à distância? O momento em que grita, alto e bom som: “malta, sigam-me! É por aqui”. Torna-se um pouco o herói do grupo, o porta-voz divino, o salvador da humanidade (com toda a humildade, claro).

Conduz então esse rebanho feliz pelo mato (felizmente não é o grande lobo mau), orgulhoso(a) e confiante! E de repente fica na dúvida, quando a marcação que pensava ter visto nada mais é do que um velho pedaço de papel. O drama. Atrás de si, o grupo conversa, “sim, porquê darmo-nos ao trabalho de identificar o circuito se alguém o faz por nós? Além disso, ele(a) tem uma boa cabeça, confiava nele(a) com os olhos fechados”. Não sabe o que fazer. Continuar e rezar para que, apesar de tudo, esteja no caminho certo? Ou confessar a sua culpa a todos, correndo o risco de já não ser visto(a) como o(a) salvador(a), mas como o(a) pecador(a), que induziu os colegas em erro. Quanto mais tempo demorar a decidir, menos provável é que os seus colegas sejam compreensivos. 

Para sair desta situação com estilo, não finja parar e atar o atacador (para poder voltar atrás sem ninguém se aperceber). Também não vale a pena culpar a organização. Nestas circunstâncias, só há uma saída: assumir a responsabilidade. Tal como fez quando tomou o leme, e sabendo que um capitão nunca abandona o navio, mesmo (especialmente) quando a situação é crítica, proclame tão alto e bom som como fez anteriormente: “ouçam, acho que me enganei. Não era uma marcação, mas sim um pedaço de papel (que vai apanhar, evidentemente). Peço desculpa, temos de voltar para trás”. Qualquer pessoa sensata vai compreender. Especialmente porque dizem que tem uma boa cabeça.

6. A origem do engarrafamento que incomodava todos: o fim do mistério

Já está num “bom pequeno grupo” há alguns quilómetros: o ritmo é bom, o ambiente é agradável, resumindo, apoiam-se mutuamente, até dá gosto! Motivado(a) pela dinâmica do grupo que o(a) rodeia, decide assumir a liderança. Também quer contribuir, não há razão para que a liderança do grupo calhe sempre aos mesmos. Mas corre mal! O seu pequeno momento de euforia pessoal começa bem… Mas acaba logo de seguida.

Como que por acaso, foi preciso assumir a liderança para que o caminho se tornasse subitamente sinuoso, complicado, marcado por raízes e pedras (tudo o que adora #lol). E, novamente como que por acaso, este caminho torna-se estreito e a descer. A pique. Mal tem tempo de reagir e fica encurralado(a). Literalmente. Agora não tem como escapar. Não tem outra escolha senão avançar, custe o que custar, pois o trilho não é suficientemente largo para encostar-se de lado ou ser ultrapassado(a). Sente-se a sufocar e com suores frios. E com razão, correr num trilho estreito a pique é um pesadelo semelhante àquele em que tem de cuspir em público sem falhar. Além disso, sente a respiração dos outros praticantes no pescoço, e podia jurar que ouviu alguns deles resmungar. A origem do engarrafamento é nada mais, nada menos, do que você. E é bem sabido que os engarrafamentos no trail não ficam atrás dos engarrafamentos de trânsito em Paris. Mesmo nada.

Para sair desta situação com estilo, pare de imaginar o que os outros pensam de si. Concentre-se nos apoios, a desenvoltura muscular virá por si só, e a confiança também. A essência do trail é a tolerância, e os praticantes atrás de si estão plenamente conscientes (e felizmente para eles) de que nem todos podem vir das montanhas, nem escalar como uma camurça. E há certamente pessoas que estão felizes por não estarem no seu lugar neste momento, e para as quais os seus apoios são pontos de referência. Portanto, respire, relaxe, cada qual tem as suas próprias forças e pontos de progresso… :)

Conclusão

O trail não se resume a paisagens de cortar a respiração, harmonia com a natureza e contemplação. Não, o trail é bem mais do que isso (sim, é possível). E além disso, uma história não seria sequer uma boa história sem alguns contratempos engraçados, certo?
Porque estas situações constrangedoras ensinam-nos a ver que as belas emoções emergem e permanecem, mesmo quando não as esperamos, o trail continua a ser a oportunidade perfeita para encontrar-se e para compreender como o olhar do outro não é tão severo, desde que se saiba observar a si próprio com benevolência e desprendimento.
Por isso, não se prive mais de um salto que expresse a sua alegria na meta de uma corrida, ou sob o olhar de um fotógrafo. Ria-se com vontade quando escorregar no gelo, depois de o(a) terem avisado que “aqui é escorregadio, tenha cuidado”, e de lhes ter respondido “sim, eu sei”. No trail, não podemos prever nada com antecedência, é tudo uma surpresa, e é precisamente isso que confere magia à aventura… E o motivo porque voltamos, sempre!

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Manon barré

MANON - Filha, irmã e companheira de ciclistas. Praticante de trail* que cresceu ao ar livre, na escola do desporto. Partícula ultra* em processo de aquisição. Maratonista e campeão de França Júnior 2013 em 10 000 metros de marcha atlética. Apaixonada por histórias de desportistas.

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